segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Rifa-se um coração...

Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade
está um pouco usado, meio calejado, muito machucado
e que teima em alimentar sonhos, e cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente
que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado,
coração que acha que Tim Maia estava certo
quando escreveu... "não quero dinheiro,
eu quero amor sincero, é isso que eu espero...".
Um idealista...
Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece,
e mantém sempre viva a esperança de ser feliz,
sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional
sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações
e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste
em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições
arrependido de palavras e gestos.
Este coração tantas vezes incompreendido.
Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que,
abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas,
mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado,
ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado
indicado apenas para quem quer viver intensamente e,
contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida
matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente
que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater
ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:
" O Senhor poder conferir", eu fiz tudo certo,
só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal
quando ouvi este louco coração de criança
que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro
que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo,
mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que,
ainda não foi adotado, provavelmente,
por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais,
por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.
Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que,
mesmo estando fora do mercado,
faz questão de não se modernizar, mas vez por outra,
constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário
a publicar seus segredos e, a ter a petulância
de se aventurar como poeta.

Clarice Lispector.

De repente...

E quando achamos que temos todas as respostas a vida vem nos prega peças e muda todas as perguntas que vinhamos tentando responder a tempos...
E toda a crença que você tinha nas coisas, e tudo que pensava sentir, e toda loucura que achava ter passado, voltam com a força de um vulcão, tornando sua vida uma bagunça, virando tudo que parecia sólido e certo de cabeça para baixo...
Não se consegue mais coordenar pensamentos, e o coração que já era teimoso por si só, parece fugir do seu controle completamente...
Os olhos que já conseguiam enxergar as coisas mais claramente voltam a ficar embaçados das lágrimas que o medo traz...
E ao mesmo tempo que tudo perde o foco, vc tem vontade de chorar e sorrir, fica com a cabeça ora nas nuvens ora no inferno, e o tal bambear de pernas e borboletas no estômago que a tempos não sentia mais voltam com força total, lembrando de que existem coisas que não podemos controlar, e o coração descompassado entra em curto circuito com a razão...
Em resumo quando menos se espera...
E o quebra cabeça que antes parecia quase montado, volta a ficar com as peças mexidas, mas não posso dizer que isso não é delicioso...
E com certeza tem me feito sonhar acordada logo eu, que achei que nunca mais sentiria isso denovo.

domingo, 7 de novembro de 2010

O amor e o ódio...

É bem verdade que nunca amaremos completamente outra pessoa, sempre detestaremos alguma coisa nela, queremos consertá-la, ou que diminua determinadas manias, o jeito, ou o próprio gênio...
A verdade é que ninguém é perfeito e que nenhum ser humano chega até nós 0km sem frustrações, sem medos, sem manias insuportáveis ou um gênio que é um tanto quanto IMPOSSÍVEL de se conviver... Mas como para o amor nada é impossível por mais insuportável que aquele ser seja em mil e uma coisas, ele é tão adorável, encantador e doce em outras que acabamos por relevar sua estupidez quando ele vem e nos fala palavras que nos faz bambear as pernas...
De uma coisa eu tenho certeza o amor é mesmo esse turbilhão de sentimentos que se mesclam e se confundem, fazendo feliz por ora infeliz por outra, amamos tanto que dói, odiamos tanto que dói mais ainda...
Odeio o mal humor dele, mas amo quando me faz sentir essas borboletas no estômago...
Odeio o machismo dele, mas amo o modo como me faz sentir protegida...
Odeio como ele se acha mais inteligente do que todos, mas amo quando me ensina algo novo...
Odeio o jeito como ele mente, mas me faz voar quando me diz verdades que gosto de ouvir...
Odeio quando me chinga, mas acho lindo quando se declara baixinho no meu ouvido...
Odeio quando ele some, mas quando aparece me deixa sem chão...
Odeio quando brigamos, mas quando fazemos as pases esqueço do mundo lá fora...
Odeio o modo como ele quer mandar em mim, mas aprendi que quando ele não está tentando fazer isso me faz uma falta tremenda...
Odeio quando não me escuta, mas amo quando ele tem algo a dizer...
Odeio a insegurança que esse relacionamento me causa, mas ao mesmo tempo sei que talvez isso me prenda cada dia mais a ele...
Odeio decepcioná-lo e mais ainda quando ele me decepciona, mas parece que ele sabe exatamente quando me surpreender...
Odeio o gênio forte dele, mas amo a pessoa que ele é...
Por fim as vezes odiamos amar alguém desse jeito, mas o que seria de nós sem esse ódio e amor que juntos nos consomem completamente, de corpo e alma?
A única verdade universal é que de fato amor e ódio andam lado a lado e que o sentimento inverso ao amor JAMAIS será o ódio, mas o desprezo, pq quando deixamos de sentir até mesmo raiva de determinadas coisas em alguém, aí sim essa pessoa deixa de existir dentro de nós...